Assédio Moral no Trabalho

Índice

Conceitos gerais

O assédio moral se configura pela exposição repetitiva e prolongada do trabalhador a situações humilhantes. Em geral, visa à demissão do assediado.

A violência moral no trabalho constitui um fenômeno tão antigo quanto trabalho e internacional segundo levantamento recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) com diversos paises desenvolvidos. Assediar significa uma “operação” ou conjunto de sinais que estabelece um cerco com a finalidade de exercer o domínio. Conhecido também como violência moral ou tortura psicológica, envolve atos, palavras, gestos, ou seja, qualquer comportamento agressivo. Pressupõe exposição — prolongada e repetitiva — a condições de trabalho que vão sendo degradadas ao longo da jornada. Predominam relações desumanas e aéticas, marcadas por manipulações contra um trabalhador.

Geralmente ocorre em relações de poder em que há o autoritarismo, quer seja do superior (a maioria dos casos), de pares ou de um subordinado. O problema não é apenas do indivíduo que assedia ou do assediado, mas também das condições de trabalho que permitem que chefes e/ou outras pessoas que realizam o assédio moral, tenham espaço para isso.

Prevalência

Estudos da Organização Internacional do Trabalho dão números de 5 a 8% de assediados na população em geral. No Brasil, uma pesquisa está sendo realizada em âmbito nacional, envolvendo trabalhadores de empresas privadas e públicas de diferentes categorias. Dados preliminares apontam para um índice nacional de 33% de assédio moral, com variações segundo a região.

Lista dos prováveis assediados

Funcionários adoecidos, sindicalizados, aqueles em final de estabilidade pós-acidente do trabalho ou pós-parto, os acima de 40 anos, os com altos salários, os criativos, os com alto senso de justiça e sensíveis ao sofrimento alheio e que defendem seus colegas; os que se expressam muito, que são questionadores das políticas de metas inatingíveis e da expropriação do tempo com a família; que não se conformam com as manipulações da empresa, que denunciam incoerências ou dá visibilidade a um problema que está ocorrendo na empresa, aqueles que fazem amizades facilmente e dominam as informações no coletivo, o subordinado que detém maior conhecimento que o seu gestor. Estes são mais assediados do que as pessoas que são dóceis e se conformam com tudo. Pesquisas mostram que cerca de 70% dos assediados são do sexo feminino.

Formas de assédio moral

O cerco contra um trabalhador ou uma equipe pode ser explícito ou não. Ele passa a sofrer “brincadeiras” de mal gosto, risos, indiretas, ações arrogantes, prazos impossíveis de cumprir, falta de reconhecimento, rebaixamento hierárquico, desprezo, sonegação de informações, provocação, apelidos estigmatizantes, agressões verbais, ameaças, gritos, empurrões, humilhações, constrangimentos e coações públicas, que ferem a sua dignidade e identidade.

A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados, associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o 'pacto da tolerância e do silêncio' no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, 'perdendo' sua auto-estima.

O assediado pode ser isolado, suas tarefas passam a ser subestimadas e desqualificadas; troca a pessoa de turno sem avisá-la. O agressor a atende de porta aberta, não respeitando a privacidade dela, a trata como criança, ou a impede de se expressar, de questionar e se explicar, usa estratégias de sedução, cooptação e pequenas corrupções, perseguição, difamação, ri das dificuldades ou erros do assediado, dá tarefas através de terceiros ou as coloca em sua mesa sem avisar, controla o tempo de idas ao banheiro, torna algo íntimo do assediado público e dá “conselhos” de que o melhor a fazer é pedir demissão.

Na pesquisa realizada pela Dra. Margarida Barrreto, em sua tese de mestrado, em 2000, com 2072 trabalhadores, notou-se instruções confusas e imprecisas (65%); bloqueio ao trabalho e referência de erros imaginários (61%); fazer de conta que o outro é invisível ou não existe (55%) e solicitar trabalhos urgentes para posteriormente jogá-los no lixo ou deixá-los na gaveta, sem qualquer utilidade (49%). Outras vezes, faz o trabalhador ficar sem ocupação ou realizar tarefas acima ou abaixo da sua capacidade profissional, como servir cafezinho, limpar banheiro (44%). São freqüentes os comentários maldosos em público (41%), assim como não cumprimentar (38%), impor horários injustificados e forçar o trabalhador a pedir demissão (35%), impedir de almoçar ou conversar com um colega, disseminando boatos que o trabalhador está doente e com problema mental ou familiar (30%).

Outra prática comum é a retirada do material necessário à execução do trabalho como fax, computador, telefone, isolando e separando-o do convívio com os colegas. Quando o assédio moral não atinge o assediado profissionalmente, a tendência é partir para o ataque na vida pessoal. Surgem “fofocas” sobre o comportamento do indivíduo de tal forma que nada se prova, mas o estigma se instala no ambiente.

Reações psico/fisiológicas dos assediados

Predominam emoções como culpa, angústia, ansiedade, ressentimentos, revolta, traição, constrangimento, vergonha, raiva e ódio. O assediado se sente desmotivado para o trabalho, com perda cada vez maior da produtividade, com vontade ou mesmo crises de choro, tensão nos ombros e pescoço, alterações do sono, sonhos frequentes com o agressor, prejuízo da memória, maior dificuldade de concentração, mais acidentes de trabalho, náuseas, hipertensão arterial, distúrbios endócrinos e cardíacos, sentimento de medo ao avistar o agressor, pensamentos repetitivos e obsessivos, irritabilidade, suscetibilidade, dores de cabeça, no peito e/ou outras partes do corpo, aumento ou diminuição da fome, ao uso abusivo de calmantes, etc. Se se prolonga ainda mais, o quadro tende a evoluir para a depressão, com forte sentimento de desesperança e há casos de suicídio relatados. Mais especificamente no homem, a sensação de fracasso é acentuada, verbalizada através de expressões como “me sinto um objeto, um ninguém, um lixo, um zero” e os pensamentos se tornam confusos; ele tende a se isolar, a aumentar a ingestão de bebida alcoólica, a evitar comentar as humilhações com os familiares e amigos; enfim, a dor masculina pode se tornar ainda mais desesperadora e devastadora.

Outros sintomas do assédio moral na saúde

Entrevistas realizadas com 870 homens e mulheres vítimas de opressão no ambiente profissional revelam como cada sexo reage a essa situação (em porcentagem).

SintomasMulheresHomens
Crises de choro100-
Dores generalizadas8080
Palpitações, tremores8040
Sentimento de inutilidade7240
Insônia ou sonolência excessiva69,663,6
Depressão6070
Diminuição da libido6015
Sede de vingança50100
Aumento da pressão arterial4051,6
Dor de cabeça4033,2
Distúrbios digestivos4015
Tonturas22,33,2
Idéia de suicídio16,2100
Falta de apetite13,62,1
Falta de ar1030
Passa a beber563
Tentativa de suicídio-18,3
Fonte: Barreto, M. Uma Jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP

O que o assediado pode fazer:

  • Informar-se: na internet, em livros, revistas, cursos, para compreender o problema em profundidade.
  • Resistir: anotar com detalhes todas as humilhações sofridas (dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do agressor, colegas que testemunharam, conteúdo da conversa e o que mais achar necessário).
  • Fortalecer-se: através do auto-desenvolvimento para não entrar (ou sair) do jogo de poder do assediador, através de técnicas da análise transacional, da assertividade, psicoterapia, cursos, coaching e outros.
  • Criar ou participar de um grupo de mútua ajuda de assediados, onde poderá descobrir novas formas de se ajudar e de se fortalecer.
  • Evitar conversar com o agressor, sem testemunhas. Ir sempre com colega de trabalho ou representante sindical. Também é desaconselhável enfrentar o assediador sob forte emoção ou em público, especialmente se este for o gestor.
  • Buscar ajuda interna à empresa. O apoio é fundamental dentro e fora da empresa. Dar visibilidade, procurando a ajuda dos colegas, principalmente daqueles que testemunharam o fato ou que já sofreram humilhações do agressor ou do chefe do assediador. Buscar a área do RH, para denunciar o problema e buscar soluções conjuntas. Se ainda necessário, recorrer ao gestor do assediador, para comunicar e buscar soluções. Mudar de setor na empresa pode ser uma solução.
  • Exigir por escrito, explicações do ato agressor e permanecer com cópia da carta enviada ao D.P. ou R.H e da eventual resposta do agressor. Se possível, mandar sua carta registrada, por correio, guardando o recibo.
  • Buscar ajuda externa à empresa: ao Sindicato da categoria, relatando os fatos ocorridos para diretores e outras instancias como: médicos ou advogados. Procurar a Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de Medicina (ver Resolução do Conselho Federal de Medicina n.1488/98 sobre saúde do trabalhador); o Centro de Referência do Trabalhador, que são ligados às Secretarias de Saúde do Estado ou do Município e contar a humilhação sofrida ao médico, assistente social ou psicólogo. Outras opções são buscar o Ministério Público e Núcleos de Promoção de Igualdade e Oportunidades e de Combate à Discriminação em matéria de Emprego e Profissão que existem nas Delegacias Regionais do Trabalho.
  • Buscar apoio junto aos familiares, amigos e colegas, pois o afeto e a solidariedade são fundamentais para recuperação da auto-estima, dignidade, identidade e cidadania.
  • Demitir-se: Dependendo da situação, procurar outro emprego, por não encontrar apoio dentro do grupo, do RH, ou de outra instância da Empresa pode ser o melhor a fazer.

Estas são alternativas saudáveis

  • Continuar trabalhando por medo de não encontrar outro emprego e ao mesmo tempo, com medo de perder este emprego e nesta posição, acabar adoecendo é a pior opção.

Quem pode prevenir e corrigir o assédio moral e o que fazer

Esta é uma questão multidisciplinar, que envolve muitos atores, como médicos do trabalho, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, sociólogos, sindicalistas, advogados, trabalhadores, deputados, senadores, juízes, empresários, etc. Especificando, os que estão mais diretamente relacionados:

  • O assediador, na medida em que percebe sua tendência de comportamento e aceita ajuda ou treinamento para se relacionar de forma ética, através de cursos, coaching, mentoring, etc.
  • O assediado em potencial ou ativo, na medida em que nota sua vulnerabilidade diante de possíveis agressores. E o que fazer? Desenvolver-se, fortalecendo-se e posicionando-se no papel de protagonista, isto é, assumindo a responsabilidade pela condução da sua vida. Nenhuma outra resolução atinge mais o cerne do problema do que esta, pois a pessoa que entende a sua participação, de dar permissão para o processo do assédio, se fortalece e melhora sua auto-estima, evita o assédio em qualquer outra situação posterior.
  • A área de Recursos Humanos da empresa, discutindo abertamente a importância da qualidade dos relacionamentos no trabalho, levantando necessidades de treinamentos comportamentais e conduzindo-os na direção da conscientização do problema. O RH também pode criar políticas claras de conseqüências do assédio e pode acompanhar e detectar sinais precoces para conduzir as ações necessárias. Como parceiro estratégico do negócio, o RH pode obter dados numéricos que evidenciem para a alta administração e à comunidade da empresa os prejuízos e altos custos do baixo desempenho do assediado e das conseqüências diretas do assédio sobre ele, além das altas indenizações que a organização pode vir a pagar pelos danos causados.
  • Comissões de prevenções de acidentes (CIPA) podem detectar sinais do problema e promover conscientização e soluções.
  • Comissões de qualidade de vida no trabalho.
  • Sindicatos, através da informação, organização e mobilização dos trabalhadores.
  • Os médicos do trabalho, na medida em que detectam sinais e sintomas do distúrbio de assédio.
  • Os colegas e testemunhas de cenas de humilihação, que podem negar-se a serem coniventes com o desrespeito à pessoa do assediado.
  • A alta administração da empresa pode implantar políticas de gestão que favoreçam as condições para um ambiente de trabalho saudável.
  • Os órgãos do legislativo, responsáveis pela formulação de leis municipais, estaduais e federais que gerem prevenção e as devidas punições aos responsáveis.
  • A Justiça do Trabalho.
  • Os Órgãos que promovem ações para preservação dos Direitos Humanos e defesa da ética e dignidade da pessoa.
  • Os cientistas que estudam e pesquisam Qualidade de Vida no Trabalho, Gestão Estratégica , Ética e Responsabilidade Social e inúmeros outros temas relacionados ao universo organizacional, demonstrando os efeitos danosos do assédio moral na sociedade e empresas e sugerindo soluções mais sadias e eficazes.

Texto compilado e revisado pela Dra. Elizabeth Zamerul

Bibliografia:

  • Artigos do site www.assediomoral.org
  • Livro: Assédio Moral – a violência perversa do cotidiano, Dra. Marie-France Hirigoyen
  • Artigo: O que é assédio moral no trabalho - Lázaro Curvêlo Chaves http://www.culturabrasil.pro.br/assediomor.htm
  • Livro: Violência, saúde, trabalho - Uma jornada de humilhações, Dra. Margarida Barreto
  • Livro: Corações Poderosos – Uma visão positiva das emoções no trabalho – Elizabeth Zamerul – Ed. Maná

Solicitamos a gentileza de, ao publicar este artigo, citar a fonte:
Autora: Dra. Elizabeth Zamerul Ally, médica psiquiatra, psicoterapeuta, especialista em Dependência Química e Codependência www.dependenciaecodependencia.com.br