
Num momento em que o Brasil todo se comoveu com o fim do sequestro de Eloá, Nayara e das famílias envolvidas neste episódio, não pudemos deixar de refletir sobre os seus significados mais profundos. Aliás, fomos todas convidadas a participar deste drama e podemos aprender algo com esta dolorosa experiência. Vemos que, cada vez mais, são noticiados casos de violência de um “ex” que não se conforma com o “não” da parceira e a sequestra, agride e, muitas vezes, como neste caso, a mata.
Mas, olhando em retrospectiva… E antes do final, como andavam os relacionamentos destes casais? Muito provavelmente, não envolvidos por amor e sim por jogos de poder. É possível notar, no comportamento do agressor, mesmo que à distância e com poucos dados, que ele vive muito fortemente a impressão íntima de inferioridade por ter sido deixado. Por isto, o seqüestro da parceira e a violência visam sair deste lugar doloroso e recuperar o bem-estar diante de si próprio, de outros e alcançar novamente a sensação de superioridade sobre a pessoa que, na sua mente, o inferiorizou.
Isto é um jogo de poder, definido como uma série de lances, entre pessoas, que contém um truque ou “armadilha” pra dominar o outro. O truque é conseguir “fisgá-lo” pelo emocional, geralmente, pelo medo ou culpa. E isto é feito por pessoas más, com índole duvidosa e que já entram no relacionamento amoroso com más intenções? Geralmente não, de tal modo que, como no caso do Lindemberg, o agressor é um cidadão comum, conhecido por ser alguém do bem, trabalhador honesto e que, como qualquer um de nós, só quer ser feliz na vida.
Importante para o nosso aprendizado deste caso, é observar que estes jogos não costumam começar no evento violento que se torna público. Aliás, este costuma representar os últimos lances mais complexos de um longo jogo. Quando, então, começam os jogos de poder? Muito antes, com brigas que crescem e cada um dos dois quer vencer, em disputas, muitas vezes, por motivos aparentemente pequenos e sem grande importância prática, como por exemplo, pra onde vamos hoje à noite? Quem paga a conta? Quem se dedica mais ou menos nesta relação? Etc. Mas, isto não é normal nas relações amorosas? Sim, até certo ponto pode ser parte do processo de aprofundamento e desenvolvimento de um bom relacionamento, porém, é preciso observar qual o nível de “necessidade de poder” que o outro precisa ou quer. Se ele começa a dar sinais de que pode desrespeitar ou agredir psicológica ou fisicamente a sua parceira, para conseguir o que quer, isto pode significar que ele representa mais perigo do que esperança de um relacionamento feliz.
Quando ele, fragilizado na sua estrutura de personalidade, percebe que esta mulher se permite dominar, assume uma posição de antagonismo na relação, onde, em vez de “amoroso ou amigo”, começa a disputar o domínio dela, em doses de agressão cada vez maiores e cada vez que ela cede, ele se transforma num “inimigo” mais perigoso.
O que costuma ocorrer e, por isto, os números de violência contra a mulher são tão assustadores ainda, é que as mulheres, vítimas destes casos, ignoram os primeiros sinais deste comportamento, isto é, não dão a eles a devida importância, o que significa não dar limites firmes ao avanço do domínio deste parceiro. Com isto, ele se sente cada vez mais seguro e a agradável sensação de poder e a posse sobre esta mulher crescem e ganham importância nos seus mecanismos de recompensas psicológicas. Pouco a pouco, a relação se torna cada vez mais vantajosa para ele e dolorosa para ela e, no momento em que ela, não suportando mais, resolve encerrar o relacionamento, ele tem uma perda de poder e fonte de prazer aparentemente irreparável.
Neste momento, ele vive um ‘seqüestro emocional’ e precisa desesperadamente recuperar o bem-estar anterior e tenta forçá-la a voltar para a relação. A situação é urgente e a única coisa que importa é suprir a sua necessidade imediata e enorme. Por isto e se a sua fragilidade for mais grave, nada mais lhe interessará, inclusive o que pode acontecer-lhe no futuro, se estará numa cadeia ou não.
Infelizmente, nos seus precoces 15 anos de idade, Eloá não pôde perceber antes o risco que corria, o que acontece também com mulheres mais maduras. Cabe, portanto, às mulheres que assistiram a este evento, o alerta para observar, com cuidado, as reações cotidianas de seus parceiros, diante dos seus “nãos” e o quanto permitem que eles “ganhem poder” ou espaço indevido nas suas vidas.
Obs. Se você desejar copiar este artigo para posterior inclusão em qualquer mídia, pede-se que o mantenha na íntegra e adicione os créditos ao final, ou seja, Dra. Elizabeth Zamerul, médica psiquiatra (CRM-SP: 53.851), psicoterapeuta, especialista em Dependência Química e expert em Dependência Emocional.
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